Entrevista: Rodrigo Kniest, CEO Harman do Brasil

O executivo fala sobre o futuro da marca AMX

Rodrigo Kniest

CEO da Harman do Brasil


 

A Harman figura hoje entre os principais fornecedores de tecnologia para o mercado professional, lifestyle e OEM em nível global. Detentora de marcas como JBL, Soundcraft, Studer, DBX, AKG e muitas outras, a holding opera em um sem número de mercados, desde aplicações específicas como broadcast, até em segmentos bem mais abrangentes como o de som para carros.

Seguindo sua sólida estratégia de aquisições, em 2010 a empresa adquiriu a Selenium, tradicional fabricante de equipamentos para sonorização brasileira iniciando uma nova era da empresa em território nacional. Com a marca passando a integrar o portfólio, nasceu a Harman do Brasil, que trouxe uma nova visão estratégica para o mercado latino-americano, com uma forte frente de negócios locais, importação facilitada e, o mais importante, o desenvolvimento e fabricação de tecnologia local.

Com as marcas da Harman ganhando uma a uma presença forte no Brasil, quando a empresa anunciou a aquisição da AMX, gigante do mercado de automação de tecnologias e processos, era de se esperar que em breve o mercado brasileiro fosse um dos contemplados com a chegada forte da marca. E não precisou nem de seis meses para que se desse esta aproximação com os integradores do mercado.

No começo de Março, a empresa realizou em São Paulo um grande evento reunindo integradores, consultores e a imprensa especializada para apresentar sua nova equipe AMX Brasil. Durante o evento, que contou com a presença do CEO da Harman do Brasil, Rodrigo Kniest, os executivos aproveitaram para demonstrar o nível de integração que o novo portifólio traria para as marcas já existentes.

Buscando entender como todas as novas tecnologias e produtos à disposição da Harman se dispunham para o mercado Broadcast, a Digital AV aproveitou o evento para conversar com Kniest. Durante a entrevista o CEO nos falou do futuro das marcas e das estratégias para sobreviver a atual crise econômica no país.

Digital AV: Como se integra o que a AMX faz hoje para marcas como Studer ou outros produtos da linha de áudio?

Rodrigo Kniest: A AMX era sem dúvida nenhuma um ponto que estava faltando em nossa linha de produtos. Quando nós adquirimos a (fabricante de sistemas de iluminação para shows) Martin, a luz ajudou muito em nosso seguimento de Show Business. Hoje podemos ofertar um palco completo. 

Hoje no mercado coorporativo e de instalações já existe o áudio profissional como Voice Alarms, Microfones e PAs, que são produtos que já tínhamos, agora poderemos fornecer também a integração disso tudo com automação. 

Pensemos num exemplo bem simples, como uma loja que quer ter áudio, luz e automação. Agora podemos fornecer isso tudo. Além disso, nos abriu também novos mercados que podemos atender melhor. Quando se projeta uma sala de reunião high-end, a automação é o primeiro ponto que é pensado, e ela quem puxa o restante da tecnologia. Antes nós ficávamos em papel secundário, como fornecedor de áudio e luz, agora estamos em primeiro plano.

Digital AV: Nos últimos anos vimos a Harman popularizar cada vez mais suas linhas, baixando custos e criando produtos no nível de entrada. Isso deve acontecer também com a AMX?

Kniest: Com certeza, passaremos a ver mais AMX em ambientes menos High-End. Nossa missão como Harman do Brasil para criar a verdadeira AMX do Brasil, é termos produtos e serviços associados dentro da necessidade que o cliente tem. Em hipótese alguma nossa abordagem será elitista, queremos atingir a maior parte do mercado.

Claro que as aplicações AMX já puxam os casos mais complexos, porque é dai que a marca vem, mas nosso foco será mais no mainstream e nas aplicações básicas. Por isso que na hora de selecionar o portfólio, dos milhares de produtos da AMX, selecionamos 600, que é o que vamos trabalhar no Brasil. Parte destes produtos trabalharemos com estoque local, outra parte vamos importar por demanda. Com este portfólio vamos atingir lojas, igrejas, escolas. 

Digital AV: Haverá também fabricação de produtos AMX no Brasil?

Kniest: Vamos começar importando, mas é uma questão de demanda. Nossa fábrica em Manaus já tem 10 anos de operação, então nossa estratégia é sempre a mesma. Se o produto der volume suficiente para valer a pena montar no Brasil, começaremos a fazer isso em Manaus.

Digital AV: A ideia é fazer esta integração de tecnologia em novos produtos ou já adaptar com a linha existente?

Kniest: Esta integração já está acontecendo. Isso é uma estratégia da divisão profissional. Logo que se compra a AMX surge a questão de como se integrar com os portfólios que já existem. Nos últimos seis meses os engenheiros da Crown, DBX, e até mesmo JBL já estão em contato com o pessoal da AMX em grupos de trabalho conjunto criando protocolos de comunicação e otimizando o funcionamento dos produtos. A segunda etapa são novos produtos, cuja a linguagem de controle AMX já será nativa nos produtos Crown, JBL, etc.

Digital AV: O crescimento da Harman Internacional tem mostrado uma média anual de cerca de 1 bilhão de dólares por ano. Isso deixa vocês bastante à frente de outras empresas de tecnologia profissional, mas ainda sim longe das grandes empresas de tecnologia do Vale do Silício. O objetivo de vocês é alcançar este patamar? 

Kniest: Eu não estou autorizado a falar deste horizonte à longo prazo, mas posso dizer que a Harman tem grandes ambições. Não vamos parar nos 7 ou 8 bi (A Harman hoje vale 6 bilhões de dólares). O Futuro é muito mais promissor. 

O Dinesh Paliwall (Chairman e CEO da Harman International) passa sua mensagem da seguinte forma: Queremos ser especializados e ter a melhor tecnologia possível possível. Ser a mais inovadora. Então não queremos ser gigante em horizonte de mercado, não queremos fabricar de tudo. Queremos se especializar e aprofundar cada vez mais, aprofundar no mercado e uma criar uma parceria melhor com clientes. 

A Harman temos um perfil muito B2B. Cerca de 80% do nosso faturamento vem de vender nosso produto para alguém que vai usá-lo como ferramenta de trabalho. Neste caso, quanto mais aprofundada for esta relação, e a atenção, maior o potencial de ambos crescerem. Neste horizonte é que está o vetor de crescimento da Harman. 

Digital AV: E este crescimento acontece também na divisão brasileira? 

Kniest: Na verdade, nestes últimos 4 anos e meio, o nosso faturamento em reais mais do que triplicou. Então na verdade estamos até um pouco na frente da Harman International. Claro que no momento a economia não está favorável a isso, neste exato momento, quando falo de crescimento, estou falando em manter posição. Para isso é preciso um forte crescimento em Market Share. Vários mercados onde atuamos estão encolhendo e nós estamos conseguindo manter nosso tamanho. 

Digital AV: Normalmente empresas grandes, como a Harman, sofrem menos em crise do que concorrentes menores...

Kniest: Isso é um dos fatores da nossa posição, mas não é o mais importante, porque você não consegue empurrar produto para seu cliente por muito tempo. Em primeiro lugar está a oferta que fazemos para nosso cliente, que são de produtos diferenciados. Ele entende que isso é bom para o negócio dele, principalmente no B2B.

Mas sim, momentos de crise selecionam o mercado. É no momento da dor que as empresas precisam evoluir e mostrar seu potencial. Eu espero que este momento de crise seja mais de crescimento da maturidade do mercado. Vemos o governo cada vez mais controlando o mercado, o que desestimula omercado cinza, o que para nós é muito bom. Quanto mais o mercado amadurecer, melhor para nós.

Mas claro, o pulmão financeiro é importante. Empresas menores não tem muita condição de sobreviver em momentos de crise. E graças a nosso aporte internacional podemos passar por isso. Mas claro que isso traz uma responsabilidade muito grande. Não existe dinheiro fácil. Tudo que recebemos de investimento no Brasil é sustentado por nossos resultados.

Digital AV: Um dos principais mercados da Harman no Brasil e no Mundo é o de fornecimento de áudio para carros em modelo OEM. Com a queda brutal na venda de automóveis em 2015, como isso afeta o momento da Harman?

Kniest: Este é um momento difícil não apenas para a Harman. A economia como um todo está em um momento muito sensível. Estes indicadores são consequências de como a população e o empresariado está pensando.

O que mais me preocupa são indicadores que estão na base como a cotação do dólar, o custo da energia, o custo dos combustíveis. Este aumento de custo local, e que em último caso pode até ser um surto momentâneo de inflação, é o que realmente mais me preocupa. E acho que vamos ter de conviver com isso por um bom tempo, pelo menos este ano, e sim estamos nos preparando para isso de várias formas.

Uma delas é ter uma empresa extremamente ágil para buscar eficiência. Neste momentos precisamos buscar mais produtividade, alternativas de fornecimento, aumento da qualidade, porque a não-qualidade tem um custo muito alto, e com isso conseguir sustentar uma posição de competitividade razoável e ter uma oferta boa para o mercado para sustentar um aumento de Market share, que é o que estamos buscando.É uma equação muito delicada, vai dar muito trabalho durante este ano, e claro que sempre esperamos pelo melhor. Esperamos que isso passe, que realmente o governo encontre o caminho de novo e faça um bom trabalho.

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